Traço o meu calendário quando me apetece
E é nele, que inscrevo os meus dias solenes.
É um calendário que, com toda a normalidade, desce o rio e desagua no mar
E, de tão rigorosamente pessoal, não tem horas de chegar.
Anda sempre carregado de estrelas e de imaginações
E desce pela névoa matinal sem normas e sem leme.
Não usa bandeiras nem se enfeita de cânticos sagrados.
O meu calendário é branco e azul e pouco delicado
Como tem ser para bem traduzir o peso do dever…
É leve, muito leve e carregado de infinitos
Que acontecem em todo o meu entorno:
Sempre os eventos são muito transparentes, mas sem dono.
Nunca celebro nada. Todavia, mesmo quando celebro,
De tão contrariado, estou bem fora da celebração.
E a minha prática mais frequente é a deserção
Anda por aí um frio que se aquece nas ruas
Onde lampadários atrevidos faúlham de festa
E oferecem músicas com sabor a mel.
Até gosto daquelas melodias que me poderiam embalar
Todos os dias para eu adormecer sem me drogar.
Um frenesim de compras, um sonho temporário
Os votos da felicidade inteira à porta do sacrário
Tudo é pretexto deste alarido que daria para rir
Se, por humanas razões, não tivesse vontade de chorar…
É tanto o desperdício popular
É tanta a estupidez a desfilar,
E sempre cada ano, ano após ano, ano após ano!!!
Quando eu dei conta do embuste em que andei manietado
E sustentado pelos pacóvio que cresciam e viviam a meu lado
Só não me revoltei porque sou sereno e racional
E não adianta querer
Esclarecer a rocha fria, o pinho agreste, a água bela e transparente
Que nasce e corre, inocente, da eterna e generosa fonte.
Mas tive, e tenho muita pena das pessoas, grandes e pequenas,
Que em cada ano, quando Dezembro é mau de frio,
Correm às novenas para preparar um desenlace tonto e repetido…
Como se em cada ano, vinda do além
Uma pomba chegasse e fecundasse
Outra alegre, devota e santa virgem
JCR Dezembro de 2009

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